Sunday, September 9, 2007

CARIDADE, A VIRTUDE DO AMOR (Sofia Guedes)






"1. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.
2. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todo
s os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada.
3. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!
4. A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante.
5. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.
6. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.
7. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8. A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará.
9. A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita.
10. Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá.
11. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança.
12. Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido.
13. Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade - as três. Porém, a maior delas é a caridade".
(1Cor 13)

Caridade – a Virtude do Amor

Depois de umas férias excelentes, com todos os temperos para que soubessem a férias verdadeiras, voltei a “casa” e à vida que o lugar e o tempo me propõem.
Cheguei e tinha nem mais nem menos que a minha irmã Ana internada no Hospital, com um grave problema de ossos e o meu pai numa Residência de velhinhos, onde a cada dia que passa podemos reconhecer os traços das suas vidas agora cansadas e como que a prepararem-se para o dia que o Senhor os há-de chamar.
Ao mesmo tempo, no esplendor da vida, mas com as dificuldades e desafios dos dias, a minha filha mais velha a precisar da minha ajuda para lhe ficar com a minha neta e assim ela poder organizar um pouco da sua vida.
Tudo isto acrescenta à minha própria vida de família, com o meu marido, e a minha filha mais nova de 11 anos ainda em férias (quase a acabarem) a pedir para brincar em casa com amigas, pedir para passear com ela de bicicleta, pedir a minha companhia.
Devo dizer que nunca , mas mesmo nunca me tinha encontrado numa situação semelhante. Em 50 anos, sempre tudo me correu conforme eu gostava, como se fosse eu a comandar o tempo e os acontecimentos. É verdade que nos últimos 25 anos aprendi com Jesus, que a nossa vida só tem valor quando nos esquecemos de nós e olhamos para os outros. Eu tentei seguir este caminho, e como não tinha directamente nenhum drama ou dificuldade, dediquei algum do meu tempo aos outros ora visitando doentes, ora organizando eventos como o Presépio na Cidade, a Caminhada pela Vida, etc. Tudo isso fiz com muito empenho e coração. Tudo isso fiz no exercício da minha Liberdade e com um enorme amor a Cristo, mas tudo isso era-me sempre distante porque era por opção, escolhido por mim. Curiosa a maneira como Deus nos trabalha?!!?...
Acontece que tudo mudou e todas essas experiências prepararam-me, educaram-me , para eu reconhecer que desde há um mês para cá, a barreira que dividia o sofrimento que eu reconhecia e via, mas sem nunca o tocar, fosse agora retirada e toda a nova realidade, me fosse dada de graça. E quando digo graça, é mesmo Graça!
O que tenho aprendido, os medos que afinal existem mas são possíveis de ultrapassar, são também os meus. Faço parte desse “filme” que é a vida e onde o sofrimento, a doença, a aproximação da morte me dizem e me falam muito intimamente.
Sem me arrastar demasiado, não posso deixar de escrever e de me admirar com o que Deus fez em mim, através de toda a minha vida:” Maravilhas!”
Hoje quando visito a Ana e o meu pai, venho com uma imensa Paz. Visito-os sem olhar o relógio, visito-os para lhes tocar, dar mão, olhar fundo nos seus olhos e estar… à Ana leio poesia que nunca tinha lido antes. E como é Bela! Ao meu pai, dou-lhe a mão, encho-o de festinhas e digo vezes sem conta ,como gosto dele.
A Ana espera pelas melhoras, reza e pede-me que reze para que a coragem e a inteligência a ajudem nos dias que ainda tem que sofrer. O meu pai, tranquilo, mas cada dia mais longe, diz-me que está pronto para partir, sem medo. Diz-me que se sente preparado para morrer e que embora sabendo que o amamos muito e ele a nós, está cansado e gostava de descansar “Lá”, já que se confessou e sente-se leve e pronto para a “viagem”.
Entretanto e não sei como isto acontece, consigo passear a minha neta, e dar a volta de bicicleta com a minha filha mais nova.
É um mistério este o da vida!!??
E esse mistério tem um nome: AMOR
Ousei escrever sobre o Amor, porque o sinto profundamente e porque na Residência onde está o meu pai, uma senhora linda já de muita idade e com problemas motores, me disse a propósito desta relação de filhos e pais, e netos e avós: “Sabe? Na nossa idade, este amor que sentimos em nós e em vocês, é transcendente! Este Amor, é tudo o que nos resta e é tão bom!” Então descobri que esta senhora me tinha dado a resposta ao mostrar-me como eu própria fazia parte deste Amor, que é como diz S. Paulo sobre a Caridade na sua carta aos Coríntios.

Sofia Guedes
Set. 07