Monday, September 24, 2007

O Mistério daquele Lugar


O Mistério daquele Lugar


Nuno Serras Pereira
22. 09. 2007


Num sábado à tarde do mês de Agosto pus-me a caminho da Praça da Alegria em busca da tão gratuitamente publicitada "clínica" dos Arcos. Tinham-me dito que ficava por ali perto e, de facto, subindo um pouco, como quem vai para o Príncipe Real, logo a descobri. Está sedeada num prédio novo na Rua da Mãe-de-Água. A sua parte fronteira, com a porta de entrada, dá para a intersecção de duas vias que se cruzam – a já referida e a Travessa do Rosário –, de modo que o matadouro se estende, por um lado, para a parte superior da Rua da Mãe-de-Água, que logo ali termina no Chafariz do Vinho e, por outro, pela Travessa do Rosário, fazendo traseira com um Templo da "Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica".

Em síntese: o abortadouro, calvário do nosso tempo, está situado junto a uma cruz – as duas vias formam uma cruz perfeita, alicerçada na Praça da Alegria –, na rua da Mãe-de-Água, a meio da Travessa do Rosário, nas traseiras de um Templo Evangélico.

Quando ontem à tarde ali voltei, ao descer a Avenida da Liberdade, começou por me impressionar a quantidade imensa de gente que ia e vinha tratando das suas coisas ignorantes ou indiferentes à matança que ali decorria tão perto… Chegado ao Gólgota, enquanto rezava o terço por aquelas mulheres grávidas e seus filhos que entrevia pelas vidraças transparentes da portaria, não pude deixar de meditar sobre o mistério daquele lugar.

O que primeiro salta à vista é, evidentemente, o mistério da iniquidade. Não é possível encontrar uma explicação meramente racional para uma cegueira tamanha, para uma loucura tão desumana e cruel, tão alheia do amor e da solidariedade, tão contrária à solidariedade e à justiça.

Mas logo a este mistério tremendo, providencialmente, se sobrepuja um outro Mistério que nos envolve e penetra de uma esperança contra toda a esperança. O sangue inocente, derramado pelos algozes actuais é, num certo sentido, sangue de Cristo, ali de novo e repetidamente crucificado. A Mãe-d'água e o Chafariz do Vinho, que nela se encontra, lembram o Coração trespassado de Cristo, do qual brotaram sangue e água, sinais da Eucaristia e do Baptismo; a água, sabemo-lo bem, é símbolo do Espírito Santo que tudo vivifica e purifica. A Mãe é a Virgem Maria, Esposa do Espírito Santo, e, por isso, cheia de Graça, isto é, dEle, o qual nos foi e é dado por Seu Filho Jesus.

O Rosário (isto é, o Terço) é aquela oração, feita na companhia de Nossa Senhora, eminentemente centrada em Jesus Cristo – nos mistérios da Sua vida, morte e ressurreição –, que continuamente brota do Pai, através da oração que o Salvador nos ensinou, e desemboca no Glória à Trindade, lembrando-nos as coisas últimas – o Inferno, o Purgatório e o Céu –, e ensinando-nos a confiança na intercessão da Mãe de Deus humanado.

Na Travessa do Rosário, um azulejo representa a Imaculada esmagando a cabeça do "dragão enganador" – Satanás –, na companhia de um santo Bispo ou Papa, que não consegui identificar. A Imaculada Conceição, Senhora de Lurdes, padroeira da Ordem Franciscana e Rainha de Portugal, cujos membros, tantos, tanto tempo trabalharam para que fosse reconhecida como tal, parece indicar que assim como durante séculos persistimos e perseveramos com grandes dificuldades e obstáculos no combate denodado por essa verdade, assim importa fazer de novo para que esta outra verdade da dignidade de cada ser humano desde a sua concepção seja reconhecida, respeitada, protegida, amada e promovida até à sua morte natural. A necessidade de comunhão com a Hierarquia da Igreja e o acolhimento pronto do seu Magistério, procurando diligentemente pô-lo em prática, estão representados no santo Bispo, enquanto Bispo. A importância vital de vivermos na santidade que Deus nos outorga está também significada no santo Bispo, enquanto santo, mas principalmente na Imaculada Conceição cuja fidelidade absoluta e permanência total e incondicional no Espírito de Deus, até ao fim, lhe valeu o título de Imaculado Coração de Maria.

Como ali se praticam pecados atrocíssimos logo nos lembramos de Francisco, pastorinho de Fátima, que tristíssimo pela enorme mágoa que o pecado traz a Jesus O procurava consolar, reparando com amor, e pedindo a brados de alma que O não ofendêssemos mais, pois já estava muito ofendido. Ali podemos consolar Jesus, em oração e sacrifícios de reparação. De pronto nos acode, também, Jacinta, que horrorizada pela perdição ou condenação ao Inferno de muitos pecadores, de imediato se decidiu à oração e sacrifícios instantes e prementes para que mais ninguém tivesse tal destino, mas todos pudessem arrepender-se, converter-se e salvar-se. Recordando que Nossa Senhora comunicou a Jacinta, aquando da sua estada em Lisboa por enfermidade, que a maioria dos condenados o eram por causa dos pecados sexuais, e verificando ali as suas consequências – a morte propositadamente provocada dos próprios filhos –, perceberemos melhor o alcance daquela revelação.

Depois, como não lembrar Lúcia que ficou para espalhar a mensagem e garantir o seu cumprimento, não como nós achávamos que devia ser, mas sim como Nossa Senhora pediu e Deus determinou. E como evitar meditar seriamente que o Papa João Paulo II, que de si mesmo afirmou: "Eu sou o Papa da vida e da paternidade responsável e toda a gente tem de o saber … Sim, eu cheguei à Cadeira de S. Pedro, vindo da Humanae Vitae em vista da vida humana " (Cf Padre Nuno Serras Pereira, O Triunfo da Vida , p. 260, Crucifixus, 2006), ligou explicitamente a mensagem de Fátima à defesa dos nascituros na homilia que proferiu nesse Santuário, aquando da canonização dos pastorinhos?

Mas se toda a mensagem de Fátima remete para aquele lugar, como temos vindo a verificar, então é porque o que ali acontece remete, por sua vez, para Fátima. Se Fátima tem de ser levada aos Gólgotas de hoje isso significa que o anúncio explícito e sistemático do Evangelho da vida tem de ser levado a Fátima. Fátima, torno a repetir o que tenho dito e escrito noutros lugares, tem que ser o centro da defesa e promoção da vida humana em Portugal e na Europa, em especial na sua fase inicial e terminal.

Mas o Mistério daquele lugar também se revela na colocação providencial de um templo evangélico, traseira com traseira, que nos lembra a relevância indispensável do ecumenismo. Como em outros países onde o aborto foi liberalizado parece que o Senhor nos quer indicar que o caminho mais urgente e com resultados práticos mais densos de unidade se dará na aliança das várias confissões cristãs em defesa da dignidade da pessoa humana em todas as fases da sua existência, desde a concepção até à morte natural.

A praça das alegrias levianas, vãs e mundanas conduz à ignominiosa injustiça da tortura e da morte dos mais vulneráveis, inocentes e indefesos. Mas se ali, e em outros sítios semelhantes, permanecermos, física e espiritualmente presentes, os milagres acontecerão transformando corações e salvando vidas, que já não regressarão à baixeza das diversões e jocosidades vis e insensatas da praça, mas tomando a vereda do rosário (terço) ganharão a rua da verdadeira e perfeita Alegria que os conduzirá, em via ascendente, ao Filho do Rei (Cf Lc 14, 16-24 e Mt 22, 1-14), ao verdadeiro, definitivo e eterno Príncipe Real. Onde haverá grande festa e júbilos eternos, pois o que estava perdido será encontrado e o que estava morto voltará à vida (Cf Lc 15, 32).