Thursday, September 13, 2007

OLÁ LISOBA, DAQUI PORTO


OLÁ LISBOA, DAQUI PORTO!
Mas porque raio confundimos tudo e não tratamos da alma como tratamos do corpo?
É verdade que o nosso corpo - templo do Espírito Santo - tem que ser cuidado, conservado e "guardado". Mas... Não será que às vezes exageramos ou melhor, confundimos o essencial com o supérfluo? Aconselhado - ou melhor "intimado" pelos meus filhos que temem que a minha "imagem" borre a "imagem" que eles imaginaram para mim, o José Joaquim deu-me de presente de Natal um vale "SPA SHERATON HOTEL" que me dava direito a uma manhã inteira no SPA - 5 horas...!!!, usando todos os cantos e recantos que me apetecesse, o que quer dizer entrar na piscina empoleirar-me em todas as máquinas possíveis e imagináveis, relaxar no jakuzi, transpirar no sauna, etc, rematando com uma especial limpeza de pele seguida de massagem de relaxamento - com pedras, mãos, algas e mais o que se possa pensar, e onde a imaginação do homem possa chegar. Bem, a primeira coisa que fiz foi esquecer-me e deixar caducar o prazo do dito vale, para grande indignação de todos. Mas "ele" há amigas fantásticas e uma delas, muito incomodada, lá foi conseguir uma renovação do prazo e marcou-me hora. Chegou o grande dia!!! O hall do htel é muito bonito, enorme, sendo que todas as divisões são de vidro, o que lhe dá uma luz linda, um brilho espantoso, mas que me levou a entrar e percorrê-lo todo de braços e mãos bem esticados, não vá o diabo tecê-las e dar de nariz num dos ditos. (Mas o diabo ali não "tece" nada porque está bem contente com o que lá se passa). Desci então ao "menos um" onde uma recepcionista fantasticamente bonita e bem arranjada me recebeu risonha. Mostrei o meu vale e logo a seguir apareceu outra igualmente bonita e igualmente risonha que me levou a visitar todo o SPA: a piscina - de umas dimensões incríveis, uma água transparente e clara, com plantas tropicais a apontarem ansiosas para um céu que furava por uma clarabóia enorme; o ginásio, as máquinas, etc. . "Sabe, eu queria despachar isto o mais depressa possível, por isso se pudesse já fazer a limpeza de pele e a massagem, ficava-lhe muito agradecida". O sorriso tornou-se menos radiante, e ligeiramente desdenhoso "bem, se prefere assim..." e enfiou-me numa sala redonda, toda forrada de veludo escarlate - chão, paredes e tecto - rodeada de cadeiras e de camas enormes, essas todas em cor de laranja, o que provocou no meu coração um peso. "A sua assistente já a virá buscar". Por ali fiquei, agarrada ao terço porque entretanto eram 11h30, a minha hora da cadeia de terços da tia Gena. Por toda a parte folhetos apetitosos em cima de mesinhas colocadas estrategicamente, espreitavam-me tentadores com listas dos tratamentos que ali poderia fazer… para ficar mais bonita… mais nova… mais magra…, …, … Outra menina - bonita e escultural como as outras, apareceu toda sorrisos a tentar convencer-me em que me ía fazer muito bem dar um saltinho ao jakuzi antes da limpeza de pele. Aí afinei e disse-lhe que o vale era meu e o podia usar como quisesse... "Não sei se sabe o preço desse vale e parece-me uma grande pena desperdiçar assim tanto dinheiro..." "é... também me parece que tudo isto é um grande desperdício... de dinheiro e de outras coisas...". O dinheiro… sempre o dinheiro… Finalmente veio então mais uma menina – esta com um aspecto mais profissional, isto é, menos enfeitada e menos tentadora – que me convidou para uma sala das mil e uma noites: "É para fazer o favor de se despir, guardar a sua roupinha num destes cacifos, e pôr este roupãozinho, estes chinelinhos e estas cuequinhas". Desconfiada olhei à volta. Desde miúda que nunca suportei ter que me despir em ginásios em frente de outras raparigas ou mulheres, nunca percebi se por pudor ou por sofrer de psoríase desde bebé, o que me fazia uma vergonha e uma humilhação terríveis. Mas havia divisões individuais para o efeito. Mais sossegada obedeci e ao sair,lá estava ela pronta a "deitar-me a mão”. Numa pequena divisão deitei-me numa cama que começou logo a mexer ajustando-se "à minha medida" enquanto a menina me dava a cheirar os vários cremes possíveis “para o meu caso especial”, tal prova de vinhos no melhor restaurante do mundo. A música oriental era repetitiva e começou a enervar-me "não se importa de desligar a música? É que queria rezar o terço e assim não consigo" “O terço...?" "sim, o terço...". A tal massagem era de facto deliciosa, todos os músculos foram trabalhados com suavidade e sabedoria, enquanto uma pasta fresca me abria os poros da cara para preparar a pele para a limpeza. Ave-Maria... Santa-Maria... Maravilha de terço. Os passos da menina não se ouviam porque tudo ali é almofadado, forrado, atenuado... para ninguém ouvir ninguém... para ninguém saber de ninguém... Era dia de Mistérios Gozosos. Tive "espaço" para meditar com tempo os "mistérios" da vida do Senhor, os "mistérios" da minha, da nossa vida... O que faria Maria àquela hora? É… àquela hora estaria a dar um SIM enorme ao seu Senhor Deus... Comecei a explicar à menina a alegria que me ía na alma por aquele SIM tão espantoso, tão incrível, tão decisivo na vida dela, na minha, na do mundo... "A senhora é engraçada, nunca tratei ninguém assim...". Lembrei-me do que ouvi a um bispo belga que conheci em Fátima num retiro, que viveu muitos anos no deserto junto com nativos e beduínos, e que mantinha um silêncio impressionante - de voz, de olhar, de gestos, de postura... até o corpo era silencioso... "quem rezar o terço com tempo - sem pressas, quem meditar cada mistério demoradamente - tem o Céu garantido”. Desde aí que tento dar um lugar muito especial ao terço e vou mudando a meditação dos Mistérios para não cair na rotina. …Mas a suavidade começava a transformar-se em violência…! A cara era agora espremida por todos os lados para saírem os pontos negros. “Ai… ai…” “Oh, desculpe, mas realmente a senhora não tem o hábito de limpar a pele….” E zás lá vinha mais um beliscão para espremer e arrancar entre as unhas mais outro ponto negro…! Ave Maria… Santa Maria…Mas assim não dava. Finalmente deu por finda a sessão e pôz-me em toda a cara e corpo uma máscara que cheirava a rosmaninho e dando-me uma palmadinha disse que ficasse em repouso, que viria dentro de 15 minutos. Uff, iria “ter alta”. Nesse tempo, muita coisa me veio à cabeça, muitos pensamentos, muitas pessoas, muitas realidades, muitas injustiças, muitas vaidades, muita pobreza, muita riqueza, …, …, … . Mas o que mais impressão me fez foi perceber que se eu deixar que Jesus me faça este tratamento ao coração e à alma… se cada um de nós deixar que Jesus venha espremer todos os pontos negros da nossa alma e arrancá-los um a um, vai doer muito, claro! Se deixarmos que Ele venha massajar o nosso coração, se O deixarmos desdobrar e tocar em tudo o que está escondido desde há anos dentro de cada ruga, vai custar muito, claro! Mas o resultado final ver-se-á no nosso rosto e na luz do nosso olhar: poderemos transformar o mundo! A que ponto chegámos, Senhor, para confundirmos o essencial do supérfluo desta miserável maneira? Será que temos a consciência de que cada hora de tratamentos destes podem tirar a fome, salvar a vida de muita gente? Saltei da cama antes do tempo, chamei pela menina, agradeci-lhe e puz-me ao fresco, envergonhada por estar nestes preparos e ser peregrina de Maria a Fátima a pé! Será que Nossa Senhora me viu nessa manhã? O que teria pensado? Mas porque raio confundimos tudo e não tratamos da alma como tratamos do corpo???
Teresa Brito e Cunha Olazabal