Wednesday, October 14, 2009

Enviado Pela Nicas

Cristianismo I

Há em todos os países europeus uma tradição e cultura cristã, que deu sentido e implantou valores a uma civilização, que irradiou para o resto do mundo, exercendo sobre longínquas culturas locais, uma influência que suponho, ninguém põe em dúvida. A Europa com especial relevância para Portugal e Espanha, foram os principais artífices dessa saga missionária cristã, que teve inicio no século XV. Mas será que estes dois países são actualmente verdadeiramente cristãos? Será que o Cristianismo praticado e/ou vivido pelas pessoas é um Cristianismo autêntico? Veja-se o caso português, embora me pareça que a situação em Espanha é em tudo idêntica à nossa. Julgo que neste contexto, é possível dividir a totalidade dos cidadãos em quatro grupos distintos.

Um primeiro grupo será constituído por aqueles que professam outras religiões, pelos ateus (negam a existência de Deus) e pelos agnósticos (entendem que o homem nada pode conhecer para além da experiência imediata). Constituem sem dúvida um grupo reduzido, cujo valor de percentagem estará longe de um número com dois algarismos.

Distingo depois um segundo grupo, sem dúvida o mais numeroso, o qual poderei designar como o dos Católicos não Praticantes. Constituem este grupo:

-Os que mercê de uma formação infantil cristã, ou de um ambiente onde apesar de tudo os valores cristãos ainda são aceites, trazem no seu subconsciente, resíduos desses valores.

-Os que respondendo a um senso da população, na pergunta sobre que religião professam, colocam uma cruzinha no quadrado da Católica.

-Os que aceitam casar na Igreja, baptizam os filhos, levam-nos à Catequese, participam nos actos litúrgicos, embora não estejam esclarecidos e conscientes do que tal significa.

-Os que querem para si e para os seus familiares, um funeral com o Padre.

-Vão à Senhora de Fátima cumprir uma promessa feita em momento de aflição.

-Exigem que haja procissão na festa anual da sua aldeia.

-Muitíssimos são anti-clericais, dizem mal dos Padres, dos Bispos e da Igreja, de que são parte integrante, se baptizados e têm a SUA religião. Esta sua religião não implica porém compromisso, nem preocupação de conduta, de uma vida coerente e honesta.

-Chamam beatos aos que vão à Igreja (por vezes com razão) e dizem que para se relacionarem com Deus, não precisam nem dos Padres nem da Igreja, o que em parte, mas só reduzida parte é verdade.

-Sabem que Cristo existiu (a historia o confirma), que pregou uma mensagem de amor entre os homens, mas que morreu há dois mil anos.

-Acham que até é bom que haja religião, pois é sem dúvida um travão para a maldade dos homens, dos outros homens ,obviamente. Para eles Deus só existe nos momentos difíceis, quando já não há mais a quem recorrer.

Julgo poder distinguir seguidamente, um terceiro grupo, muito menos numeroso que o anterior, e que designarei como o dos Católicos Praticantes, que se caracterizam pelo seguinte:

-São antes de tudo e em larga escala pessoas bem-intencionadas, mas preocupadas sobretudo com a sua salvação.

-Reduzem a religião a uma série de praticas, às quais assistem (não participam) por obrigação e com sacrifício (assim o dizem).

-Reduzem a Igreja a uma agência de Sacramentos, uma espécie de estação de serviço, onde e quando necessitam, se vão servir de Missas, Baptismos, Comunhões, Novenas, Funerais, etc.

-Ao saírem do Templo deixam de ser cristãos, pois o seu Cristianismo deixa de influir na sua vida. Destes dizem, e com razão muitas pessoas “Era bem melhor que fossem menos à Igreja, mas fossem boas pessoas”.

-Sabem muitas orações de cor, que debitam sem se aterem ao sentido das palavras. A grande maioria nunca leu o Novo Testamento, a principal fonte da Revelação Cristã.

-De Jesus Cristo sabem o que aprenderam na catequese ou pouco mais, e que é sem duvida importante. Que foi a encarnação de Deus numa pessoa humana, e que deixou uma maravilhosa mensagem de amor, mas que tudo isso é passado.

-Não estão conscientes que Cristianismo sem expressão apostólica/missionária, não existe com autenticidade. É pura beatice na pior acepção da palavra.

-Não se aperceberam que para se viver o Cristianismo com autenticidade, é necessário que a vida seja vivida em coerência com os valores que dizem ser os seus.

-Quanto ao preceito que devem amar os outros, incluindo os inimigos, aceitam-no em teoria mas no concreto……?

-A religião é para muitos um salvo-conduto para a sua salvação, vivem sobretudo no temor de Deus e desconhecem o amor a Deus. Outros aspectos poderiam ser citados para caracterizar este grupo, mas por agora fico-me por aqui.

Mais reduzido, assim suponho eu, que os dois anteriores grupos, surge um quarto e último, que designarei como dos Católicos-Cristãos, já que o centro da sua vida é Jesus Cristo. As suas principais características são as que cito seguidamente:

-Um dia descobriram Jesus Cristo, ao terem um encontro pessoal com Ele, onde sentiram e se aperceberam, que Cristo estava ali presente, junto de si.

-Um encontro único e maravilhoso, não só pela indefinível e elevada densidade dessa vivência, mas também pela claridade e luz, que a partir de então passou a jorrar sobre a vida e os seus problemas.

-Ficaram a saber que o ser supremo, absoluto e criador, é-lhes permanentemente acessível na pessoa de Jesus Cristo. Com Ele podem e devem dialogar sempre que o desejem.

-Sabem-se e sentem-se amados por Cristo, amor que sentem necessidade de retribuir, o que passam a fazer das formas mais diversas.

-Procuram saber mais e conhecer melhor Jesus Cristo, o que os conduz à prática de uma leitura atenta e frequente do Novo Testamento.

-O melhor conhecimento da pessoa de Cristo consciencializa-os, não só para a infinita grandeza do Homem-Deus, mas também para a pequenez da pessoa humana.

-O encontro com Cristo possibilita ainda um outro encontro, que eu considero fundamental, o encontro consigo próprio, e fica-se com a coragem de nos vermos tal como somos por dentro. Usando o espelho da humildade, reconhecem-se os defeitos e também as qualidades. Os defeitos tentam emenda-los e os talentos põem-nos a render.

-Ficam a saber que Cristo se identifica com cada um de nós (Ele próprio o afirma), cada homem ou mulher é um Cristo.

-A consciencialização desta realidade condu-los a um terceiro encontro com os outros. Os outros existem e abstraindo das diferenças nas qualidades humanas, o outro em termos de dignidade humana vale tanto como eu.

-O impacto do encontro com Cristo é de tal maneira penetrante e impregnante, que quando ele ocorre, aquele que passa por esta experiência muda radicalmente a sua forma de estar na vida.

-Encontram finalmente um ideal digno de ser vivido pelo homem, ideal que não excluindo outros ideais legítimos e humanos, coloca-se todavia acima deles.

-A esta adesão a Cristo costuma chamar-se conversão, e eu diria que é o grande e decisivo passo que se dá na caminhada da conversão, já que esta é obra de toda uma vida.

-O encontro com Cristo condu-los a algo que é fundamental no Cristianismo, a fé em Jesus Cristo ressuscitado que é a garantia de tudo o que Ele veio revelar e em que acreditam.

A fé não é algo que explica tudo, que torna tudo claro e transparente, mas a certeza que Cristo existe, está vivo e presente nos Cristãos, e a consciência de que os homens são seres limitados, faz que aceitem com simplicidade a sua incapacidade de não só não penetrarem totalmente nos mistérios da vida, mas também o não compreenderem os porquês de acontecimentos por vezes trágicos, que ocorrem e para os quais não encontram explicações racionais.

-O encontro com Cristo trás consigo uma enorme paz interior, geradora de felicidade porque se reconhece pecador o homem esforça-se por ser melhor.

-O desejo de que os outros, a começar por aqueles que lhe estão mais próximos usufruam da mesma fé, da mesma paz e da mesma felicidade, leva-os a empenharem-se em tarefas apostólicas, não só como um dever, mas sobretudo como um desejo e uma necessidade na linha do amor.

Muito mais se poderia dizer sobre este tema, mas vou deixá-lo para outras ocasiões que certamente hão-de surgir, não quero porém terminar, sem dizer o seguinte:

Na caracterização dos 2ºs e 3ºs grupos, fui por vezes crítico, e ao sê-lo não estive a apontar o dedo a ninguém que eu conheça. Procurei criticar atitudes e não pessoas, porém se alguém se sentir atingido, que enfie a carapuça com humildade, pois eu tenho-a enfiado muitas vezes.

Ao caracterizar os grupos, não foi minha intenção classificar os que se identificam com os três primeiros grupos como os maus, e os do quarto grupo como os bons, há boas e más pessoas em qualquer um deles. Certamente que os do quarto grupo pelas ajudas e graças que recebem e pela consciencialização que têm sobre a situação, serão capazes de um maior esforço na caminhada, de se afastarem das suas imperfeições e valorizarem as suas virtudes. Sem qualquer espécie de mérito da minha parte, eu tive o meu encontro com Jesus Cristo, quando tinha 38 anos, e um dia contar-vos-ei como tudo ocorreu. O impacto desse encontro, as inúmeras graças que ao longo da minha vida venho recebendo, e algum esforço pessoal, têm permitido que no essencial eu continue fiel ao meu SIM, que na altura dei a Cristo, claro com acidentes de percurso, caindo e levantando-me como é próprio da fragilidade humana.

A caracterização que fiz do quarto grupo, é pois o testemunho da minha vivência do acontecimento, e das suas consequências. Julgo que não terei errado ao generalizar a minha experiência, pois me parece que todos os que passaram por uma experiência idêntica, e tenho conhecido muitos, não enjeitariam aceitar como válidas as minhas afirmações.

Um grande xi-coração do Pai,

Outubro de 1995

(José Froes)