Sunday, June 14, 2009

PASSEMOS À OUTRA MARGEM

Pedaços de Vida – Ano B – nº 30

PASSEMOS À OUTRA MARGEM

(Mc 4,35)

Para passar à outra margem é preciso deixar muita coisa: a margem em que se está, a segurança que se tem, talvez algumas coisas que se possuem. E deixar custa sempre muito. Não se trata de deixar por deixar, mas deixar para possuir Algo ou Alguém. Passar da margem do pecado à da graça, do orgulho à humildade, da soberba à simplicidade, da ostentação à simplicidade, da violência à paz, da depravação à dignidade, do egoísmo ao serviço. Precisamos de passar à outra margem, mesmo que, como no Evangelho de hoje, nos apareça alguma tempestade na travessia. Para sermos mais felizes precisamos de passar à outra margem onde nos esperam novas maravilhas, um mundo novo de graça e de consolação, de vida em Deus, de encontro renovado com Jesus, de purificação e de santidade. Passemos à outra margem.

Não fiquemos instalados, aburguesados, sentados na margem de cá, na rotina cómoda da vida, gozando os prazeres que nos agradam. Passemos à outra margem, mesmo que o deixar implique morte a nós, ao que é nosso, ao nosso amor-próprio, comodismo, sensualidade desordenada, apegos doentias, afectos mórbidos. Passemos à outra margem para que se realize em nós verdadeira mudança de vida, possamos vislumbrar novas paisagens do amor, novas flores nos caminhos da vida. A outra margem terá surpresas agradáveis, sublimes, santificadoras. A outra margem, depois da purificação da tempestade e de Jesus estar a dormir, depois do grito de fé no meio da noite das tormentas, é algo divinamente surpreendente.

Todos, mesmo a Igreja nas suas estruturas, na sua liturgia, nas diversas formas de pastoral, sobretudo na pastoral vocacional, nas manifestações da piedade popular, temos que passar à outra margem. E nas estruturas paroquiais, na maneira de viver e distribuir o clero, temos que ser ousados e passar à outra margem. E precisamos de passar à outra margem quando temos necessidade de tomar opções mais radicais, mais evangélicas, na luta contra o mistério do mal, do pecado, da mentira, da injustiça. Temos que passar a outra margem na maneira de usar nosso dinheiro, na acumulação do supérfluo, nas horas mal gastas do dia, na atenção amorosa aos pobres e doentes. Temos que passar à outra margem deixando para trás opulência, violência, luxo, luxúria, revestindo-nos de Cristo e buscando as coisas do Céu. Temos que passar à outra margem, pois nesta o pecado nos enreda, a poeira nos cega, a cobiça nos domina., o ciúme e a inveja nos põe doentes, apodrecem o coração.

Jesus vai connosco nesta trajectória e mesmo adormecido cuida de nós sempre. Não tenhamos medo. A vida precisa de mudar, as mentalidades precisam de mudar, os critérios precisam de mudar, as opções precisam de mudar, o modo de estar em Igreja precisa de mudar. Encaminhados por Cristo, passemos à outra margem. Como será bela a nossa vida, como rejubilará nosso coração, como seremos pessoas novas pelo dom da graça. Não desistamos de avançar e de passar à outra margem. Zaqueu quando se decidiu dar metade dos bens aos pobres e dar quatro vezes mais àqueles a quem roubou, passou, efectivamente, à outra margem. Não tenhamos medo da palavra do Mestre, do seu convite, da sedução divinal, de passar à outra margem. O amor d’Ele nos fará novos e connosco todas as coisas. Não fiquemos parados, instalados, vendo partir a barca. Passemos à outra margem. Sejamos audazes, destemidos, arrojados. Deixemos o caduco e efémero, o que não dá felicidade verdadeira, o que nos impede de ser homens e mulheres com o coração aos pulos, pois Deus está connosco, está em nós. Passemos à outra margem. Que maravilhoso desafio.