Tuesday, June 2, 2009

"Um bocadinho de Céu!"

Tenho medo que este testemunho vos deixe inquietos, sou um “buscador” da inquietude, nos outros e em mim!

Mas, como estou certo que sempre, ou quase sempre, as verdadeiras certezas nascem da inquietude do espírito, vou-me inquietando e esperando que os outros se inquietem também!

Odeio metas, por isso tento sempre não chegar a elas, gosto de lhes pôr barreiras, entraves, só assim o fim do caminho fica mais longe, que estupidez esta de não caminhar por estradas fáceis. Estou convicto que seria melhor, o caminho, se cortasse a direito. Desculpem mas não o sei fazer, mesmo que isto por vezes me desespere… Adoro encontrar pedras, para uma a uma, com mais ou menos sacrifício, as por de lado, ou como dizia o poeta construir um castelo.

Seria tão mais fácil aceitar as coisas sem as por em causa, sem pensar nelas, sem lhes dar um pouco do meu tempo, mas ao mesmo tempo seria um reprodutor de ideias certas mas longínquas no meu interior, faziam só parte da memória e não da minha verdade. Afinal para que serve saber a tabuada se não sabemos fazer contas?

O mesmo se passa com a terrível mas maravilhosa palavra a que chamamos Fé. Para que nos serve a Fé se não sabemos tirar proveito interior do magnífico dom que é acreditar?

Uma das minhas grandes dúvidas é, que posso, ou melhor que devo eu fazer com a minha Fé? Bem sei que o primeiro princípio é aumentá-la um pouco mais todos os dias da minha vida, mas isto só não me basta, ou melhor, basta-me teoricamente mas não me sossega o espírito.

Foi este espírito inquieto e desassossegado que me levou a andar convosco até Fátima, fui à procura de respostas, ando sempre na mira de respostas!

Quando finalmente os meus pés carregados do peso dos do meu Pai, chegaram a Fátima, respirei de alívio, finalmente tinha chegado e pensei não me custou nada, é mesmo fácil…

1ª rasteira:

Tinha-me avisado a Pimpas, que depois do caminho é que vinham as rasteiras, e pensava eu, que queres tu dizer com rasteiras, percebi logo na chegada ao Santuário que não é pelo facto de fazermos o caminho que ficamos imunes a esta doença de deixarmos de lutar para acreditarmos todos dias um pouco mais.

E fui rasteirado... logo ali, quando tudo me parecia ter sido fácil, foi-me pregada a primeira rasteira, um terço inteiro, de joelhos, para mim uma das piores posições físicas por causa das minhas costas, foi então que percebi que o caminho me iria marcar para sempre, nesse terço, nesse repetir de orações, revi toda uma “viagem”, senti cada passada, cada olhar, cada Avé Maria meditada com a Tia Manaça, reordenei cada novo bocadinho de mim, revelado nos momentos de silêncio, cada mudança que me propôs fazer, cada tempo que quero entregar aos outros, cada defeito que entreguei, enfim cada tudo, não me escapando nada…

E foi de joelhos em frente a Capelinha que me propôs a acreditar mais e mais, para poder crescer e assim abraçar o mundo, é preciso abraçar o mundo e mostrar-lhe esta alegria que trazemos dentro de nós, contagia-lo com esta extraordinária força que a fé nos dá. Isto, estou certo, é continuar a caminhar, levando o nosso testemunho aos outros, mostrar-lhes como se pode sorrir na dor, como se pode amar a cruz, e acima de tudo caminhar para a cruz na certeza que quando lá chegármos Ele nos vai sorrir (obrigado Padre António por esta imagem que tanto me tem inquietado).

Dificil esta missão de fazer Cristo muribundo sorrir. Na dor, no sofrimento, esquecemos o mundo à nossa volta, só pensamos em nós e na nossa forma de encontrar um antidoto para o nosso sofrimento. Tudo o que queremos é libertar-nos daquela provação, isto tudo, porque somos egoístas, porque não entregamos o nosso sofrimento pelos outros. Quantos de nós, pregados na cruz, seriamos capazes de sorrir por amor ao próximo?

Eu ainda não sou capaz, não descobri a forma do meu sofrimento se tornar pura entrega, o meu sofrimento ainda é puro egoísmo.

É esta a transformação que me proponho a fazer, mas isto não é em nada um PPP (um propósito, pequeno e possível), é a maior das ambições é uma cambalhota total! Não sei se sou capaz...

Voltando ao caminho, ao fim do caminho, à nossa partilha, aquela onde o meu Pai me fez chorar de contente, onde tive mais um emporrão, afinal talvez seja possível chegar a imagem do sorrir na cruz. Percebi com total clareza isto ao ouvir duas mães, que perderam um filho explicarem que foi na fé que encontraram a paz para aceitar aquela partida, é algo de extraordinário. Obrigado Malica, obrigado Rosarinho, por me ajudarem a perceber que nos momentos dificeis deste caminho, a fé nos leva ao colo e, mais e melhor, aprendi que é quando vamos ao colo dela que conseguimos ter força para entregar o nosso sorriso aos outros!

É para isto que rezamos todos os dias o Pai Nosso e mais que rezar, tentamos, com a maior dificuldade do mundo, pô-lo em prática, devo dizer-vos que é o meu maior tormento mas, estou certo com a vossa ajuda serei capaz, talvez capaz...

“Pai Nosso, que estais nos céus,

Santificado seja o vosso nome,

Venha a nós o vosso Reino,

Seja feita a vossa vontade,

Assim na terra como no céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje.

Perdoai-nos as nossas ofensas,

Assim como nós perdoamos

A quem nos tem ofendido,

E não nos deixeis cair em tentação,

Mas livrai-nos do mal. Ámen. “

Obrigado a todos por me terem ajudado a perceber o que é amar pelo sofrimento! Obrigado a todos porque Convosco toquei um bocadinho do céu...

Lisboa, 30 de Maio de 2009

Pita

P.S. vejam este video