Saturday, May 30, 2009

Hoje é 3a ou 4a f.?

Foi assim que cheguei a casa.

Não sabia o dia da semana em que estava.

Tinha desligado.

Cheguei a casa com pena da peregrinação ter acabado e quando vi o meu duche tive saudades dos duches que tive e quando vi a minha cama tive saudades do meu saco cama e de dormir rodeado de amigos. Muitos dos quais nem sei os nomes.

Só quando abri a agenda comecei a por os dias, as horas e a dita vida normal em dia.

Vida normal que cada vez mais penso que é anormal.

A peregrinação a sério não acabou, começou quando chegamos a casa.

Eu fui um dos super privilegiados que levou o andor dia 12 a noite.

Curiosamente durante a caminhada, primeiro disse que sim que levava o andor, depois quando nos aproximávamos de Fátima no dia 12 disse que não e depois do terço em frente a Capelinha vieram ter comigo e perguntaram: Vens ou não vens, deixa-te de merdas ? Disse que sim e foi espectacular. Depois de termos sido escolhidos fomos levados para uma sala onde estava o andor já todo arranjado mas sem a Senhora. Tudo a volta do andor nesta sala eram flores. Ficamos de boca aberta e aflitos. Perguntamos ao Servita se podíamos rezar uma Ave Maria ali. E rezamos. Todos queríamos dizer coisas mas ninguém dizia nada. Até que um mais afoito perguntou a um Servita se podia ir a casa de banho. Ele disse que sim. E fomos oito a casa de banho. Havia uns risos nervosos de imensa responsabilidade e uma vontade enorme de tirar uma flor do andor mas ninguém mexeu em nada. Vieram os Servitas com as suas explicações: Vão levar o andor vazio para a Capelinha e depois fazem o primeiro percurso. Poisam devagar o andor e depois voltam a levantar o andor com a Senhora e vão andando devagar e rematou: “ Não deixem cair a Senhora “ ! Foi espectacular. Foi único. Levantamos o andor com a Senhora e como o cortejo estava atrasado estivemos uns bons 5 minutos parados na Capelinha a carregar o andor já com a Senhora antes de começarmos a andar. Mais uma vez vi o sortudo que eu sou e os privilégios que vou tendo na minha vida. O abraço que todos trocamos quando mudamos de turno foi longo e sentido. É para quem fez.

Como toda a gente tenho problemas na minha vida que comparados com outros de tantas outras pessoas não são nada e tenho tantos privilégios.

Invento problemas, invento coisas e isto é um dos meus problemas.

Aprendi nesta peregrinação que para poder gostar dos outros tenho que gostar de mim primeiro. Tenho que me aceitar e ser menos revoltado. Explodir menos e sobretudo pensar primeiro.

Continuo a não perceber as questões da dor, do sofrimento. Não consigo ficar indi- ferente quando vejo alguém a sofrer de dor, de emoção, de tristeza, de alegria. Já ouvi muitas explicações mas não acredito em nenhuma.

Continuo a não perceber porque uns e não outros.

Continuo a não perceber certas posições da Igreja. As vezes, na minha opinião, tanto radicalismo para umas coisas e tanto politicamente correcto para outras.

Muitas vezes penso o “ Chefe “ faria assim ? O “ Chefe “ diria isto ? O “ Chefe “ disse que o seu reino era outro. Então onde esta a duvida ? Porquê o socialmente bonito ?

Um dos meus grandes problemas é que eu não me revejo em muitos dos empregados do “ Chefe “ como eu lhes chamo. Pela simples razão que dizem uma coisa e fazem outra. Pela simples razão que não lhes encontro nenhuma espiritualidade. Pela simples razão que não me fazem rezar. Pela simples razão que não me fazem pensar. Não acredito em quem fala sobre matérias sobre as quais nunca tiveram que resolver na sua própria vida. Como se diz no mundo dos negócios: Nunca se tiveram que atravessar. É fácil dar opiniões sobre coisas importantes, muito importantes, mesmo muito importantes sobre matérias que não nos tocam, que não temos que resolver. Eu prefiro dizer que: O que eu quero é nunca estar na posição de ter que resolver, decidir isto ou aquilo.

Continuo a gostar de ir a Fátima mas continuo sem perceber porque Fátima trata tão mal os seus visitantes e peregrinos ( limpeza, higiene, espiritualidade, silencio, zonas verdes, restaurantes com uma sopa quente abertos durante a noite, etc. ). As vezes penso Fátima tem negócios a mais e espiritualidade a menos e irrita-me quando oiço pessoas não praticantes a gozar com estes aspectos.

Sei que fico muito aflito com certas frases que oiço em doentes, que me fazem ter vergonha das minhas queixas, que me fazem rezar, que me fazem crescer, que me fazem ter um respeito enorme pela pessoa que esta a “ falar “ comigo. Pessoa que efectivamente as vezes não fala, escreve, acena com a cabeça ou só com a sua expressão me faz acreditar.

Sei que a vida dá muitas voltas e sei que se hoje estou aqui é porque estive a afogar-me.

Sei que se hoje levo a vida que levo é porque Deus quando fecha uma porta abre uma janela.

Sei que queria ter mais coisas mas também sei que podia dar aos outros mais coisas.

Sei que ando a deixar de ser revoltado aos poucos e que tenho ainda muito chão para pisar.

Sei que cheguei a casa e andei a procura da agenda de 2010, que ainda não comprei, para marcar a peregrinação do próximo ano.

Sei que desfiz o saco com pena mas a vida a serio começa hoje no dia Fátima + 1.

Sei que em casa cheio de comodidades rezo pouco e naquele dia na estrada debaixo de chuva, todo molhado, rezei, cantei e senti-me bem. Sei que senti orgulho em todas as pessoas que saíram para a caminhada depois do pequeno almoço em Vale Figueira. Todos sabíamos que íamos apanhar uma molha mas ninguém disse nada, ninguém criticou, ninguém ficou para trás. Fomos todos. Todos molhados a rezar. Foi espectacular de força.

Sei que numa orquestra de vez em quando chama-se um só instrumento para brilhar, para fazer um solo. Aqui brilhamos todos bem molhados a luz da chuva.

Sei que para rezar e ou recordar ( matar saudades ) faço percursos da peregrinação. Vou andando, vou recordando tudo. Vou procurando as mochilas e o Cocas para saber se vou no caminho certo.

Sei que ao longo do ano vou explicando como é a peregrinação, as etapas mas, sei que é difícil, impossível explicar as emoções que vou sentindo, os olhares, as conversas, os terços rezados pelas bermas, pelas estradas, pelos campos.

Sei que estar parado, sozinho em frente ao Pavilhão da Azambuja, recordar tudo e não ver ninguém é uma solidão enorme.

Talvez seja por isso que faço cruzes. Talvez seja uma forma de eu rezar. Passo dias seguidos sem fazer nenhuma e depois vem uma vontade enorme e são seguidas.

Senti muito a falta do Zé Pedro Rhodes Sérgio. Gostava da sua amizade, do ouvir cantar e de rezar com ele.

Sei que voltei com mais vontade de ir ao IPO e de aprender com os doentes. A pouco tempo uma Senhora que tem um problema na garganta me dizia: Saio amanhã e logo que poder vou a Fátima com o meu marido. O que é preciso é ter fé para ter força e saber que há pessoas que estão muito pior que eu.

Só me sento no chão nas bermas das estradas uma vez por ano mas essa vez sabe tão bem e é recordada ao longo do ano.

Sei, já tive provas duras dadas, que as amizades que fiz no Passo a Passo são para a vida e que cada vez que nos encontramos sem querer rezamos. Sei que já conheci gente no Passo a Passo com os quais ia para a guerra.

Sei que esta semana, é a semana magica do ano.

Tomas Moreno

FÁTIMA, MAIO 2009