Saturday, May 30, 2009

"Testemunho de um priveligiado"

Já tinha tido por duas vezes o previlégio de transportar o andor de Nossa Senhora em Fátima mas sempre em Outubro. É uma sensação arrepiante por um lado mas tranquila por outro pois sentimo-nos perto do Céu.

Este ano,após a chegada ao Santuário com toda a carga emocional que a todos nos enche, fui a correr para as traseiras da Capelinha aguardar a escolha pelos Servitas de quem leva o andor na Procissão das Velas.

E de um grupo de oito (dos quais faziam parte o Tomás Moreno, o Francisco Mota Ferreira, o António Sobral e o Filipe) fui escolhido para ,juntamente com um peregrino do norte, ir à frente no primeiro turno,ou seja, aquele que vai buscar o andor ao sitio onde ainda se encontra repleto de flores mas vazio, depôr o mesmo na Capelinha e aguardar que , durante o 5º mistério do Terço seja colocada a Imagem da Virgem e seguir por entre a multidão até mais ou menos um terço do Santuário, onde o 2º turno nos aguarda.

Embora seja muito difícil, vou tentar explicar o que senti nestes três quartos de hora.

Comecei por agradecer e ao mesmo tempo pedir perdão à Virgem por um vulgar pecador como eu manchar a candura e o brilho tão puro da Imagem e do que Ela representa.

Com os nervos à flor da pele pensei que não ia conseguir levantar os cerca de 40 Kg que cada um carrega, que as minhas hérnias lombares me iam imobilizar durante a Procissão e que ia manchar a beleza de tal momento. Assim pensei em desistir pois não ia conseguir. E tudo isto se passava com o andor ainda vazio.

Olhava para os sete que estavam tão ansiosos quanto eu, e o staff do santuário que nos rodeava tentavam descontrair-nos transmitindo um voto de confiança .

De repente o Tomás pergunta a um servita o caminho da casa de banho e aí fomos todos a correr aliviar o nosso nervoso de miudo que entra no liceu pela primeira vez.

Depois deste episódio rocambolesco, ouvimos uma voz de comando : “ Tudo pronto ? Vamos começar “

E foi neste momento que o meu colega que seguia em 2º lugar atrás de mim me bate nas costas e diz “Amigo não te aflijas pois tenho força de dois “

Foi esta mensagem do Céu que eu necessitava de ouvir para conseguir por duas vezes levantar a minha parte do pesado andor.

Quando as portas se abrem e entramos naquele mar de velas acesas julguei que eram as portas do Céu se tinham aberto. E sem saber como aí estou eu em plena Capelinha no meio da pompa da cerimónia a uns escassos metros da Venerada Imagem da nossa Mãe.

Senti redobrar a Paz do Céu que durante a semana nos invadiu.

Sem me aperceber as lágrimas começaram a cair, tudo isto diante daquele aparato de halofotes, fotógrafos e câmaras da TV.

Também sem me aperceber comecei a descarregar para o Céu todas as Avé Marias , Pai Nossos e tudo mais que tinha acumulado durante ao nossa caminhada.

E então dei conta que todo o nervosismo era injustificado, pois quando se trata de servir Nossa Senhora, tudo corre bem, tudo é Brilho e Luz.

Começa então a nossa lenta caminhada pela ala da Procissão, em que me abstraí por completo do peso no ombro.

Olhava enternecido para as faces devotas da multidão que ,ao passar o andor ,se prostrava mentalmente perante a Sagrada Imagem .

Senti carregar o Mundo às costas, e com uma estranha e inexplicável leveza .

As lágrimas não paravam de cair e nada fiz para as enxugar pois eram lágrimas priveligiadas de orgulho e devoção por este inesquecível momento que tive a SORTE de poder viver.

E com grande pena minha passei o meu lugar ao João Pinto Magalhães que me rendeu em tão honrosa tarefa.

João pela tua cara percebi o que estavas a sentir! Considera-te também um previlegiado.

E só tive tempo para, no meio da multidão e ainda de cara molhada, dar um forte abraço ao desconhecido peregrino que com a sua palavra amiga de força dupla me fez andar sem receios.

Luis Barahona de Lemos

Maio 2009